
Dra. Thalita Martinelli - 05 de Janeiro de 2026

O Acidente Vascular Cerebral, popularmente conhecido como AVC ou derrame, é uma emergência médica que ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido ou quando um vaso sanguíneo no cérebro se rompe. Em ambos os casos, as células cerebrais começam a morrer em minutos devido à falta de oxigênio e nutrientes.
No Brasil, o AVC é a segunda causa de morte e a principal causa de incapacidade em adultos. A cada ano, aproximadamente 400 mil brasileiros sofrem um AVC, e cerca de 100 mil morrem em decorrência da doença. Esses números alarmantes ressaltam a importância de conhecer os sinais de alerta e agir rapidamente.
A boa notícia é que até 80% dos AVCs podem ser prevenidos com mudanças no estilo de vida e controle adequado dos fatores de risco. Além disso, os avanços no tratamento permitem que muitos pacientes se recuperem significativamente quando atendidos a tempo.

O atendimento rápido é fundamental para reduzir as sequêlas do AVC
Existem dois tipos principais de AVC, cada um com mecanismos e tratamentos diferentes:
O AVC isquêmico é o tipo mais comum, representando cerca de 85% dos casos. Ocorre quando um coágulo de sangue bloqueia uma artéria que leva sangue ao cérebro. Esse coágulo pode se formar localmente (trombose) ou viajar de outra parte do corpo, geralmente do coração (embolia).
As principais causas do AVC isquêmico incluem aterosclerose (acúmulo de placas de gordura nas artérias), fibrilação atrial (arritmia cardíaca que favorece a formação de coágulos), e doenças das pequenas artérias cerebrais relacionadas à hipertensão.
O AVC hemorrágico ocorre quando um vaso sanguíneo no cérebro se rompe, causando sangramento dentro ou ao redor do cérebro. Embora menos frequente (cerca de 15% dos casos), é geralmente mais grave e tem maior taxa de mortalidade.
As causas mais comuns incluem hipertensão arterial não controlada (a principal causa), aneurismas cerebrais (dilatações anormais dos vasos), malformações vasculares e uso de anticoagulantes.
O AIT, também chamado de "mini-AVC", ocorre quando o fluxo sanguíneo para o cérebro é temporariamente interrompido. Os sintomas são semelhantes aos do AVC, mas desaparecem em minutos a horas, sem deixar sequêlas permanentes.O AIT é um importante sinal de alerta: cerca de 10-15% das pessoas que sofrem um AIT terão um AVC completo nos próximos 3 meses, sendo que metade desses AVCs ocorre nas primeiras 48 horas. Por isso, o AIT deve ser tratado como emergência médica.
Reconhecer os sinais de um AVC e agir rapidamente pode significar a diferença entre a vida e a morte, ou entre a recuperação completa e a incapacidade permanente. Use a sigla SAMU para lembrar os principais sinais:
S - Sorriso: Peça para a pessoa sorrir. Um lado do rosto está caído ou paralisado?
A - Abraço: Peça para a pessoa levantar os dois braços. Um braço cai ou não consegue ser levantado?
M - Mensagem: Peça para a pessoa repetir uma frase simples. A fala está arrastada, confusa ou a pessoa não consegue falar?
U - Urgente: Se qualquer um desses sinais estiver presente, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
Outros sintomas que podem indicar um AVC incluem: dor de cabeça súbita e muito intensa, confusão mental, dificuldade para enxergar com um ou ambos os olhos, tontura intensa, perda de equilíbrio ou coordenação, e dormência ou fraqueza em um lado do corpo.

O monitoramento contínuo é essencial durante e após o tratamento do AVC
A expressão "tempo é cérebro" resume a urgência no tratamento do AVC. A cada minuto que passa durante um AVC isquêmico, aproximadamente 1,9 milhões de neurônios morrem. Isso significa que quanto mais rápido o tratamento, maior a chance de preservar funções cerebrais e reduzir sequêlas.
O tratamento mais eficaz para o AVC isquêmico, a trombólise (medicamento que dissolve o coágulo), só pode ser administrado nas primeiras 4,5 horas após o início dos sintomas. A trombectomia mecânica (remoção do coágulo por cateter) pode ser realizada em até 24 horas em casos selecionados, mas também é mais eficaz quanto mais cedo for feita
Conhecer os fatores de risco é o primeiro passo para a prevenção. Alguns fatores não podem ser modificados, mas muitos podem ser controlados:
Idade: O risco dobra a cada década após os 55 anos
Sexo: Homens têm risco ligeiramente maior, mas mulheres têm maior mortalidade
Histórico familiar: Ter parentes próximos que tiveram AVC aumenta o risco
Etnia: Afrodescendentes têm maior risco de AVC
Hipertensão arterial: O principal fator de risco, presente em 70% dos AVCs
Diabetes: Aumenta o risco em 2-4 vezes
Colesterol alto: Contribui para a aterosclerose
Tabagismo: Dobra o risco de AVC isquêmico
Obesidade e sedentarismo: Aumentam vários fatores de risco
Fibrilação atrial: Aumenta o risco em 5 vezes
Consumo excessivo de álcool: Aumenta o risco de AVC hemorrágico
A prevenção do AVC envolve o controle dos fatores de risco e a adoção de hábitos saudáveis:
Controle a pressão arterial: Mantenha a pressão abaixo de 140/90 mmHg (ou conforme orientação médica)
Controle o diabetes: Mantenha a glicemia e a hemoglobina glicada dentro das metas
Pare de fumar: O risco de AVC começa a diminuir imediatamente após parar
Pratique atividade física: Pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada
Mantenha peso saudável: O excesso de peso aumenta vários fatores de risco
Alimente-se bem: Dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais e pobre em gorduras saturadas e sódio
Limite o álcool: No máximo 1 dose/dia para mulheres e 2 doses/dia para homens
Trate a fibrilação atrial: Use anticoagulantes conforme prescrito
O tratamento do AVC depende do tipo e da gravidade:
Trombólise: Administração intravenosa de medicamento que dissolve o coágulo (alteplase ou tenecteplase). Deve ser feita nas primeiras 4,5 horas.
Trombectomia mecânica: Remoção do coágulo por cateter, indicada para obstruções de grandes artérias. Pode ser realizada em até 24 horas em casos selecionados.
O tratamento foca no controle da pressão arterial, reversão de anticoagulação se aplicável, e em alguns casos, cirurgia para drenar o sangramento ou tratar aneurismas.
A reabilitação é fundamental para a recuperação após um AVC. Uma equipe multidisciplinar pode incluir fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais. A reabilitação deve começar o mais cedo possível, ainda no hospital.
O AVC é uma emergência médica grave, mas em grande parte previnível e tratável. Conhecer os sinais de alerta, agir rapidamente e manter os fatores de risco sob controle são as chaves para reduzir o impacto dessa doença.
Se você tem fatores de risco para AVC ou deseja avaliar sua saúde vascular cerebral, agende uma consulta. A prevenção é sempre o melhor tratamento.

Dra. Thalita Martinelli
Neurologista e Neurofisiologista | CRM/SC 25.771 | RQE 20816/21856Especialista em diagnóstico e tratamento de doenças neurológicas, com foco em atendimento humanizado e baseado em evidências. Atua em Chapecó/SC oferecendo cuidado integral para a saúde do sistema nervoso.