
Escrito por: Dr. Pedro Pinheiro (CRM RJ 73009-2)
Aneurisma é uma dilatação anormal, permanente e localizada de um vaso sanguíneo, geralmente de uma artéria. Em termos simples, é como se um trecho da artéria “estufasse” devido ao enfraquecimento da sua parede.
Na prática, considera-se aneurisma quando o diâmetro daquele segmento do vaso está pelo menos 50% maior do que o tamanho normal esperado. Esse enfraquecimento da parede arterial costuma ocorrer por doenças que provocam perda de elasticidade, degeneração das fibras elásticas e do colágeno, tornando o vaso mais frágil e propenso a dilatar.
O grande problema do aneurisma é o risco de ruptura, que pode causar hemorragia maciça e colocar a vida do paciente em perigo em poucos minutos. Em geral, quanto maior o aneurisma e quanto mais rápido ele cresce, maior o risco de romper.Embora qualquer artéria do corpo possa desenvolver uma dilatação aneurismática, os locais mais frequentemente acometidos são:

Quando um aneurisma de aorta ou um aneurisma cerebral rompe, o quadro costuma ser súbito e grave, muitas vezes com risco elevado de morte.Falamos especificamente do aneurisma cerebral e da aorta nos seguintes artigos:
Para entender os diferentes tipos de aneurismas, é importante lembrar que as artérias são formadas por três camadas:
O modo como essas camadas se dilatam, se rompem ou deixam de existir determina o tipo específico de aneurisma ou pseudoaneurisma.

O aneurisma sacular é uma dilatação localizada que se projeta como uma pequena bolsa em apenas um lado da artéria. É o tipo mais frequente nos aneurismas cerebrais.
Apesar da deformidade, o aneurisma sacular é um aneurisma verdadeiro, ou seja, sua parede ainda é composta pelas três camadas da artéria. Essas camadas, porém, tornam-se muito afinadas e degeneradas.
O aneurisma fusiforme envolve a dilatação circunferencial da artéria, afetando toda a sua volta. É típico da aorta, principalmente por degeneração crônica da camada média ou aterosclerose.
Assim como no sacular, o aneurisma fusiforme também é um aneurisma verdadeiro, mantendo as três camadas da parede, embora debilitadas.
A dissecção arterial não constitui um aneurisma, embora ambas as condições possam coexistir.A dissecção arterial ocorre quando há uma ruptura na camada íntima, a porção mais interna da artéria que fica em contato direto com o sangue.
Essa ruptura permite que o sangue penetre na parede do vaso e se infiltre entre a íntima e a camada média, separando-as e criando um falso lúmen (falsa luz).
A pressão contínua do fluxo sanguíneo faz com que esse descolamento possa se estender ao longo da artéria, “rasgando” a parede em comprimento progressivo.
A partir desse ponto, o sangue passa a circular por dois trajetos: a luz verdadeira, que é o caminho normal do vaso, e a luz falsa, formada pela separação das camadas.
O termo atualmente recomendado é dissecção arterial, sendo a dissecção da aorta a apresentação mais frequente e, em geral, a de maior gravidade clínica.
O pseudoaneurisma, ao contrário do aneurisma verdadeiro, não corresponde a uma dilatação envolvendo todas as camadas íntegras da parede arterial. O que ocorre é uma solução de continuidade da parede do vaso, com ruptura da íntima e da média (e, muitas vezes, também da adventícia), permitindo o extravasamento de sangue para fora da artéria. Esse sangue, entretanto, permanece em comunicação com o lúmen da artéria, ou seja, continua ligado ao vaso original, formando um hematoma pulsátil que é contido não pela parede arterial normal, mas por estruturas de contenção ao redor.
A “parede” do pseudoaneurisma, portanto, é constituída por adventícia residual quando presente, trombo organizado e/ou tecido conjuntivo das estruturas vizinhas, e não pelas três camadas típicas (íntima, média e adventícia).
Em termos práticos, trata-se de uma ruptura contida da artéria. Por ser uma situação estruturalmente muito mais frágil do que o aneurisma verdadeiro, o pseudoaneurisma é considerado mais instável e geralmente associado a maior risco de expansão e de ruptura com sangramento significativo.
A formação de um aneurisma está relacionada a uma combinação de degeneração da parede arterial, alterações estruturais do tecido conjuntivo e fatores que aumentam a pressão ou o estresse sobre o vaso. Alguns desses fatores são modificáveis, enquanto outros dependem de genética ou doenças associadas.
Os fatores mais frequentemente relacionados ao desenvolvimento de aneurismas incluem:
Algumas doenças genéticas ou inflamatórias comprometem o tecido conjuntivo da parede arterial e aumentam o risco de aneurismas. As mais importantes são:
A maioria dos aneurismas permanece assintomática por anos e costuma ser descoberta de forma incidental durante exames de imagem, como tomografia computadorizada.
Os sintomas geralmente surgem quando o aneurisma cresce rapidamente, começa a comprimir estruturas vizinhas, disseca ou entra em processo de ruptura, situação que constitui uma emergência médica.
A seguir, explicamos sucintamente os principais sintomas de um aneurisma conforme a sua localização.
Muitos aneurismas torácicos não causam sintomas até que fiquem grandes. Quando sintomas aparecem, podem incluir:
Quando há dissecção da aorta torácica, o quadro é tipicamente abrupto, com dor muito intensa, sudorese, agitação e possível queda de pressão, muitas vezes lembrando um infarto agudo do miocárdio.
Os aneurismas da aorta abdominal também costumam ser silenciosos. Quando sintomáticos, podem causar:
Quando esse aneurisma está prestes a romper ou rompe efetivamente, ocorrem:
Os aneurismas cerebrais não rotos geralmente não causam sintomas, a menos que comprimam nervos cranianos, causando:
Quando o aneurisma cerebral rompe, causa o que o paciente costuma classificar como a “pior dor de cabeça da vida”. Os sintomas de um rompimento de aneurisma cerebral incluem:
A ruptura de um aneurisma cerebral é uma emergência com elevada mortalidade.
A detecção precoce de um aneurisma é essencial para evitar complicações graves, como ruptura ou dissecção. O método de diagnóstico mais adequado depende da localização do aneurisma e do quadro clínico do paciente.
A ultrassonografia é o exame mais usado para identificar aneurismas da aorta abdominal.
É um método simples, rápido, indolor e sem radiação.
A angio-TC é um dos exames mais importantes no diagnóstico de aneurismas da aorta torácica e abdominal. Ela fornece imagens muito detalhadas e permite:
Por ser rápida, é o exame de escolha nas emergências, como suspeita de ruptura de aneurisma ou dissecção aórtica. A desvantagem é o uso de radiação e contraste iodado.
A RM produz excelentes imagens sem radiação ionizante.A angio-RM é especialmente útil para:
Não é ideal em situações emergenciais, pois é um exame mais demorado e menos disponível.
A angiografia é considerada o padrão-ouro para avaliação detalhada dos aneurismas cerebrais.
Permite visualizar diretamente o vaso, medir o colo do aneurisma e planejar o tratamento endovascular (coils, stents, flow diverters).
É um exame invasivo, mas extremamente preciso.
O tratamento do aneurisma depende principalmente de três fatores:
Em linhas gerais, aneurismas pequenos e estáveis podem ser apenas acompanhados, enquanto aneurismas grandes, sintomáticos ou com alto risco de ruptura costumam exigir intervenção cirúrgica ou endovascular.
A dissecção da aorta é classificada segundo o sistema de Stanford, que divide a doença em dois grandes grupos:
Dissecção tipo A
Dissecção tipo B
Em resumo, o ponto crítico é:
Nos aneurismas da aorta torácica ou abdominal, a decisão entre acompanhar ou operar leva em conta:
Cirurgia aberta para aneurisma da aorta
Na cirurgia aberta, a porção dilatada da aorta é removida e substituída por um enxerto sintético (prótese).É um procedimento mais invasivo, com recuperação mais longa, porém muito eficaz e duradouro.Costuma ser indicado para:
Reparo endovascular (stent-graft)
No reparo endovascular, uma endoprótese (stent-graft) é introduzida por uma artéria da virilha e guiada até o local do aneurisma sob radioscopia.
Ao ser aberta dentro da aorta, a prótese “forra” a parede interna do vaso e desvia o fluxo sanguíneo para dentro dela, reduzindo a pressão sobre o aneurisma.
Vantagens:
É amplamente utilizado em aneurismas da aorta abdominal (EVAR) e da aorta torácica (TEVAR), desde que a anatomia seja adequada.
Tratamento do aneurisma cerebral
O objetivo é impedir a ruptura ou tratar o aneurisma após uma hemorragia subaracnoide.As principais opções são:
Clipagem cirúrgica
Cirurgia aberta em que o neurocirurgião realiza uma craniotomia e coloca um clip metálico na base (colo) do aneurisma, isolando-o da circulação.
É uma técnica consagrada, muito utilizada em aneurismas acessíveis por via cirúrgica.
Tratamento endovascular (coils, stents, flow diverters)
Neste método, um cateter é introduzido por uma artéria (geralmente femoral ou radial) até o aneurisma.
Podem ser utilizados:
A escolha entre clipagem e tratamento endovascular depende de:
Para aneurismas pequenos, assintomáticos e de baixo risco de ruptura, muitas vezes a melhor conduta é o acompanhamento regular com exames de imagem (ultrassom, TC ou RM, dependendo da localização).
Além do seguimento, é fundamental:
Não existe medicamento capaz de “curar” ou “desfazer” um aneurisma já formado. Os medicamentos atuam controlando fatores que aceleram o crescimento ou aumentam o risco de ruptura, mas não reduzem o diâmetro do aneurisma.
Os remédios habitualmente prescritos são usados para:
Nos casos de dissecção aórtica, especialmente tipo B não complicada, o controle medicamentoso da pressão e da frequência cardíaca é parte central do tratamento.
Quando ocorre ruptura de um aneurisma ou uma dissecção aórtica aguda, o quadro é uma emergência grave.
O paciente pode evoluir rapidamente com choque e risco elevado de morte.
Nessas situações, o tratamento inclui: