
História de Maria Clara Rossini • 07 de outubro de 2026

SI_nobel-quimica_site© Nobel Prize Outreach/Reprodução
Algumas moléculas podem existir em duas formas diferentes. Elas têm a mesma fórmula e até as mesmas ligações entre átomos – só que uma é a versão espelhada da outra, assim como sua mão esquerda é a versão espelhada da direita. Na química, chamamos essa propriedade de “quiralidade”.
Apesar de terem a mesma fórmula, as moléculas espelhadas podem ter funções muito diferentes entre si. Uma das versões pode ser um medicamento importante, enquanto a outra pode ser um veneno. E mais: quando os cientistas tentam produzir essas moléculas em laboratório por meio de reações químicas, via de regra, eles obtêm as duas versões.
O segundo laureado é o japonês Kenso Soai. Em 1995, ele publicou um artigo que descreve uma reação que produz apenas uma versão da molécula. Em outras palavras, essa seria uma reação “homoquiral” (palavra derivada do grego que significa “mesma mão”).
Em 2003, Soai transformou teoria em realidade: fez, em laboratório, a primeira reação em que apenas uma das quiralidades é gerada. Essas descobertas foram extremamente importantes para a fabricação de fármacos seguros e eficazes. Mas não só.
Apesar de as reações químicas tradicionais gerarem sempre as duas versões das moléculas, a natureza tem preferência por um dos lados. O açúcar gerado na fotossíntese das plantas é sempre de “mão direita”; os aminoácidos que compõem nossas proteínas são sempre de “mão esquerda”; e a molécula de DNA, o próprio código da vida, é de “mão direita”.
À primeira vista, parece que não há motivo para a vida ser dessa forma. Considerando apenas o que observamos em reações químicas, faria mais sentido que os processos da natureza gerassem moléculas das duas quiralidades. Mas não é assim. A origem da homoquiralidade na Terra é um dos maiores mistérios ainda não resolvidos pela ciência, e as pesquisas feitas por Henri Kagan e Kenso Soai podem ajudar a desvendá-lo.