
Victor Augusto Generoso, Bruna Petrucelli Arruda, Silvia Honda Takada
Ilustração: Helen Indalencio Gomes e Débora Sterzeck Cardoso
Laboratório de Neurohistologia / Centro de Matemática, Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC
A eficácia da FBM está relacionada à absorção de luz por estruturas celulares chamadas cromóforos, sendo o Citocromo C Oxidase (CCO) o mais relevante para as células do sistema nervoso. A ativação desse cromóforo aumenta a produção de ATP (principal molécula de energia usada nas células biológicas) e desencadeia processos antioxidantes e anti-inflamatórios. Também ocorre a liberação de óxido nítrico (NO), que melhora o fluxo sanguíneo local e reduz a inflamação, promovendo recuperação tecidual e aumento da sobrevivência celular (6).Durante esse processo, a mitocôndria passa a funcionar melhor, ocorrência essencial para processos como a neurogênese (formação de novas células neurais) e plasticidade sináptica (habilidade das sinapses de modificar sua força e estrutura em resposta a estímulos). Estudos mostram que a luz no espectro infravermelho (especialmente em torno de 808 nm) é capaz de penetrar o couro cabeludo e atingir o tecido cerebral, estimulando essas funções e abrindo novas possibilidades terapêuticas (7).

Figura 1: A imagem ilustra como a fotobiomodulação (FBM) utiliza luz vermelha e infravermelha próxima (808 nm) para estimular a atividade mitocondrial e promover benefícios terapêuticos. A luz penetra profundamente nas camadas da pele, alcançando até o tecido cerebral, o que permite aplicações neurológicas. No nível celular, a luz interage com a Citocromo C Oxidase (CCO) na cadeia de transporte de elétrons, aliviando a inibição pelo óxido nítrico (NO) e facilitando o fluxo de elétrons, aumentando assim a produção de ATP. Com mais energia disponível e menor estresse oxidativo, as células funcionam de forma mais eficiente, favorecendo a recuperação e regeneração em tecidos superficiais e profundos, incluindo o cérebro, com potenciais efeitos em doenças neurodegenerativas e processos inflamatórios.
A fotobiomodulação é promissora para o tratamento de diversas doenças neurológicas. Em doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, pesquisas indicam que a técnica pode melhorar a função cognitiva e retardar a progressão dos sintomas. Em modelos experimentais, a luz infravermelha protege neurônios contra o estresse oxidativo e aumenta a plasticidade sináptica (8, 9).Nos casos de AVE, a FBM tem sido estudada para promover a recuperação motora e funcional, ajudando a diminuir a inflamação, melhorar a circulação e estimular a regeneração neural. Isso facilita a retomada de atividades diárias e a redução da dor (10). Em pacientes com traumatismo cranioencefálico (TCE), a terapia mostrou potencial em reduzir edema cerebral e melhorar o desempenho cognitivo e comportamental (11).A FBM também tem sido explorada para transtornos psicológicos, como depressão resistente, ansiedade e insônia. Estudos indicam que a aplicação transcraniana da luz melhora o humor e a função cognitiva e regula o sono (12). Outras investigações mostram benefícios em dores crônicas, como na hérnia de disco lombar, aumentando a qualidade de vida dos pacientes (13).
A FBM é uma terapia não invasiva, indolor e segura, com poucos riscos de efeitos colaterais. Pode ser utilizada isoladamente ou em combinação com outros tratamentos, funcionando como uma abordagem complementar eficiente. A versatilidade da técnica permite sua aplicação tanto em doenças neurodegenerativas quanto na melhora da saúde mental e na regeneração de tecidos. Embora desafios ainda existam, como a padronização dos protocolos, a capacidade da FBM em promover recuperação com poucos riscos coloca essa terapia como uma alternativa promissora.
Apesar do potencial, ainda existem incertezas sobre os parâmetros ideais de aplicação, como intensidade e tempo de exposição. Um desafio é garantir a penetração da luz sem causar aquecimento excessivo. Pesquisas indicam que densidades abaixo de 500 mW/cm² e comprimentos de onda entre 500 e 1000 nm são seguras e eficazes. Outro ponto crítico é entender os mecanismos moleculares envolvidos, especialmente em hipóxia e estresse oxidativo. Embora a FBM possa elevar temporariamente os níveis de ROS (espécies reativas de oxigênio), ela também ativa vias antioxidantes que reduzem o estresse oxidativo no longo prazo (15).
Com o avanço das pesquisas, a fotobiomodulação tem o potencial de se consolidar como uma terapia acessível e eficaz para doenças neurológicas e distúrbios mentais. O desenvolvimento de dispositivos portáteis facilitará o acesso dos pacientes a essa terapia inovadora, melhorando sua qualidade de vida. A padronização de protocolos clínicos, incluindo dosagens e tempos de exposição, será essencial para maximizar os benefícios e garantir resultados consistentes. Além disso, a combinação da FBM com outras terapias, como reabilitação motora e tratamentos medicamentosos, pode potencializar os efeitos terapêuticos e acelerar a recuperação. Essa abordagem integrada poderá transformar a fotobiomodulação em uma ferramenta amplamente utilizada na prática clínica, oferecendo novas esperanças para quem sofre de condições crônicas ou debilitantes.
Referências