Como identificar a espasticidade após um AVC

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A espasticidade pós-AVC se manifesta como aumento involuntário do tônus muscular, rigidez, espasmos e dificuldade de movimentação, geralmente em um lado do corpo.

O que é espasticidade

A espasticidade é uma condição neurológica caracterizada pelo aumento do tônus muscular devido à interrupção da comunicação entre o cérebro e os músculos após um AVC. Isso faz com que os músculos fiquem rígidos ou “travados”, dificultando movimentos voluntários e atividades diárias como vestir-se, higiene pessoal ou caminhar drlauroneurologia.com.br+2.

Sinais e sintomas mais comuns

Os sinais típicos da espasticidade incluem drlauroneurologia.com.br+3:

  • Postura característica: braços flexionados junto ao peito, punhos e dedos cerrados.
  • Rigidez muscular: dificuldade em esticar os membros, especialmente braços e pernas.
  • Espasmos musculares: movimentos súbitos e involuntários que podem causar dor.
  • Dor e desconforto: tensão constante nos músculos e articulações afetadas.
  • Limitação da amplitude de movimento: dificuldade para dobrar ou estender membros.
  • Impacto funcional: comprometimento de atividades diárias, podendo levar a deformidades se não tratada.

Evolução temporal

A espasticidade não surge imediatamente após o AVC. Inicialmente, o paciente pode apresentar paralisia flácida, com perda do tônus muscular. Com o tempo, o tônus aumenta gradualmente, e os primeiros sinais de espasticidade tornam-se perceptíveis, geralmente meses após o evento victorbarboza.com.br+1.

Fatores de risco e prevalência

Estima-se que entre 25% e 43% dos pacientes desenvolvam espasticidade no primeiro ano pós-AVC, sendo mais comum em indivíduos mais jovens e em casos de lesão extensa no córtex cerebral ou tronco cerebral drarenatagarcianeuro.com.br+1.

Importância da identificação precoce

Reconhecer a espasticidade cedo é essencial para prevenir complicações, como contraturas, deformidades articulares e dor crônica, além de facilitar a reabilitação funcional. O manejo envolve fisioterapia, terapia ocupacional, medicamentos, injeções de toxina botulínica e, em casos graves, intervenções cirúrgicas drlauroneurologia.com.br+1.

Identificar sinais visuais, observar alterações na postura, rigidez e espasmos, e relatar qualquer dificuldade funcional ao neurologista ou fisioterapeuta são passos fundamentais para o diagnóstico e tratamento eficaz da espasticidade pós-AVC.

Espasticidade pós-AVC: atualizações baseadas em evidência para prática clínica

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) permanece como uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. Apesar dos avanços no tratamento agudo e na reabilitação, a espasticidade ainda representa uma complicação frequente e desafiadora, acometendo aproximadamente um terço dos pacientes pós-AVC.

Definida classicamente por Lance como um aumento do tônus muscular dependente da velocidade, resultante da hiperexcitabilidade do reflexo de estiramento, a espasticidade é consequência direta da lesão do neurônio motor superior. Quando não tratada, pode levar a dor, contraturas, deformidades e prejuízo significativo da função e da qualidade de vida.

Objetivo do manejo

O tratamento da espasticidade evoluiu além da simples redução do tônus. Atualmente, os principais objetivos incluem:

  • Melhorar a função motora
  • Prevenir complicações (contraturas, deformidades)
  • Reduzir dor
  • Facilitar cuidados e higiene
  • Otimizar participação na reabilitação

Um ponto central é que não existe uma abordagem única: o manejo deve ser individualizado, levando em consideração a gravidade, distribuição da espasticidade, comorbidades e objetivos do paciente.

O que há de melhor evidência atualmente?

Uma revisão recente baseada em metodologia GRADE identificou intervenções com maior nível de evidência (GRADE A), reforçando a importância de uma abordagem multimodal.

Terapias físicas: base do tratamento

Alongamento

O alongamento passivo (estático ou dinâmico) continua sendo amplamente utilizado:

  • Atua principalmente na manutenção da amplitude de movimento
  • Deve ser utilizado como terapia adjuvante
  • Isoladamente, apresenta benefício limitado na redução da espasticidade

Recomendações práticas:

  • Sessões curtas e repetidas são preferíveis
  • Intervalo ≥ 60 minutos entre séries
  • Tempo total diário ≤ 2,5 horas (evitar dor)

Órteses e posicionamento

Apesar do uso frequente na prática clínica:

  • Evidência ainda limitada
  • Uso prolongado (>9–12h/dia) não demonstrou prevenir contraturas

Estimulação elétrica (TENS)

A estimulação elétrica nervosa transcutânea se destaca por ser:

  • Não invasiva
  • De baixo custo
  • Possível de uso domiciliar

Evidência:

  • Redução da espasticidade em membros inferiores
  • Benefício mais consistente como terapia adjuvante

Neuromodulação não invasiva

Inclui técnicas como:

  • Estimulação magnética transcraniana repetitiva (rTMS)
  • Estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS)

Evidência:

  • Benefício moderado na espasticidade de membros superiores
  • Efeito via modulação da excitabilidade cortical e espinhal

Destaque:

  • rTMS de baixa frequência no hemisfério não afetado
  • tDCS anódica no hemisfério afetado

Toxina botulínica tipo A (BoNT-A)

A toxina botulínica, popularmente conhecida como Botox, é considerada o pilar do tratamento da espasticidade focal.

Benefícios:

  • Redução consistente do tônus muscular
  • Melhora de dor e cuidados
  • Prevenção de contraturas

Melhor momento:

  • Entre 4 a 6 semanas pós-AVC

Considerações:

  • Ajustar dose conforme massa muscular e perfil do paciente
  • Intervalo mínimo de 12 semanas
  • Uso de ultrassom melhora precisão e segurança

Embora a redução da espasticidade seja bem estabelecida, o impacto na função motora ainda é variável.

Baclofeno intratecal (ITB)

Indicado em casos de:

  • Espasticidade grave e generalizada
  • Falha de terapias convencionais

Benefícios:

  • Redução significativa do tônus
  • Melhora da dor e qualidade de vida

Limitações:

  • Maior risco de eventos adversos
  • Necessidade de seleção criteriosa

Mudança de paradigma: abordagem multimodal

Historicamente, o tratamento seguia um modelo em “escada”. Hoje, a tendência é diferente:

Combinar terapias desde o início, de acordo com o perfil do paciente.

Exemplos:

  • Toxina botulínica + fisioterapia
  • TENS + reabilitação
  • Neuromodulação em casos selecionados

Essa abordagem reflete melhor a complexidade da espasticidade, que envolve fatores neurais e não neurais. Pontos críticos na prática clínica

  • Nem sempre reduzir espasticidade = melhorar função
  • Medicações orais podem limitar recuperação (sedação, efeitos cognitivos)
  • Ainda há lacunas sobre:
    • parâmetros ideais de terapias físicas
    • duração dos efeitos
    • impacto funcional a longo prazo

– Referência:

  • Suputtitada, A.; Chatromyen, S.; Chen, C.P.C.; Simpson, D.M. Best Practice Guidelines for the Management of Patients with Post-Stroke Spasticity: A Modified Scoping Review. Toxins 2024, 16, 98. https://doi.org/10.3390/toxins16020098

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Dra. Renata Garcia

Neurologista em São PauloCompartilhe