Pessoas com ansiedade matemática podem entender a disciplina como algo excessivamente difícil ou aversivo. Foto: Myst/Adobe StockPor Dalila Santana
Pessoas com ansiedade matemática podem entender a disciplina como algo excessivamente difícil ou aversivo. Foto: Myst/Adobe Stock
Embora a ansiedade matemática seja pouco conhecida, ela vem sendo estudada há décadas. Um dos primeiros registros científicos sobre o tema surgiu em 1957, quando os psicólogos Ralph Mason Dreger e Lewis R. Aiken Jr. publicaram o artigo “The Identification of Number Anxiety in a College Population” (A identificação da ansiedade numérica em uma população universitária). Ansiedade numérica foi o primeiro termo usado para descrever o fenômeno. O conceito ganhou força em 1972, quando os psicólogos Frank C. Richardson e Richard M. Suinn criaram a Mathematics Anxiety Rating Scale (MARS), uma escala para medir o grau de ansiedade despertado por diferentes situações envolvendo matemática. A escala ajudou a consolidar o termo “ansiedade matemática”. Já a projeção fora do meio acadêmico ocorreu em 1978, quando a jornalista científica Sheila Tobias publicou o livro Overcoming Math Anxiety (Superando a ansiedade matemática). No Brasil, os estudos sobre ansiedade matemática começaram a se consolidar no início dos anos 2000, a partir do trabalho de pesquisadores como Carmo.
A ansiedade matemática não tem nenhuma relação com fatores genéticos ou hereditários. Segundo a psicopedagoga Eliane Portalone, docente do Centro Universitário Central Paulista (Unicep), “o desenvolvimento da ansiedade matemática está relacionado às experiências que o estudante acumula ao longo do processo de aprendizagem”.Ela afirma que “metodologias de ensino que associam a matemática ao fracasso, ao medo de errar e à constante comparação entre alunos tendem a intensificar sentimentos de insegurança e tensão diante da disciplina”.
Por isso, Carmo aponta que a ansiedade matemática também passa pela formação dos professores. O pesquisador entende que os cursos de licenciatura apresentam fragilidades em relação à compreensão da matemática como uma ferramenta útil no cotidiano; ao conhecimento sobre os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem dos estudantes e à capacidade de transformar esse conhecimento em práticas pedagógicas mais motivadoras e significativas.
PUBLICIDADEA ansiedade matemática pode ser enfrentada. Uma das estratégias é a chamada resiliência matemática, em que o indivíduo é apresentado a estratégias que ajudam a lidar de maneira produtiva com os números e a enfrentar o medo e a insegurança. Em São Carlos, Carmo tem desenvolvido um programa nessa linha. A iniciativa foi aplicada em oito escolas e atendeu cerca de 40 alunos com níveis elevados de ansiedade matemática.
Durante os encontros semanais, os estudantes aprenderam técnicas de autorregulação emocional, como exercícios de respiração diafragmática, relaxamento e mindfulness. Também foram auxiliados no processo de desenvolvimento de hábitos de estudo mais eficazes. “Temos identificado, por meio dos relatos de professores e familiares, mudanças fundamentais nesses estudantes”, diz Carmo. Segundo o pesquisador, os alunos passaram a lidar com a matemática de forma mais segura e tranquila. Eliane, por sua vez, reforça o papel de equipes multidisciplinares tanto na identificação dos sinais de ansiedade quanto na construção de estratégias de apoio aos estudantes. A psicopedagoga destaca também a importância da formação continuada de professores e da orientação às famílias para criar ambientes mais acolhedores e favoráveis à aprendizagem.