Por
Marina Bonini -
Yrla Braga olha para a reta final da novela Coração Acelerado com uma mistura de emoções, entre gratidão, saudades e desejo de realizar novos projetos. A atriz, que interpreta a divertida e deslumbrada Rosinha na novela das sete, havia desistido de atuar após enfrentar alguns problemas no âmbito pessoal, como a morte da mãe, sua maior incentivadora, e um AVC aos 29 anos.
"No momento em que a minha vida estava desabando, chega um trabalho incrível como esse", celebrou ela, natural de Barra do Garças, no Mato Grosso.
A artista começou a atuar aos nove anos com o incentivo da mãe, uma professora apaixonada pela arte. Ao perder a mãe, Yrla disse que não conseguia mais ver sentido na carreira artística. "Eu havia desistido da carreira de atriz porque eu coloquei a atuação num lugar de dor. Quando perdi minha mãe, eu meio que associei atuar a um lugar de dor, já que foi ela que me levou para esse palco", relembrou.
Após se afastar por alguns anos dos palco, Yrla recebeu o convite para voltar a atuar em 2019 com um stand-up, que ela dedicou à sua mãe. Ali ela contou que fez um processo de cura. No entanto, um AVC quase lhe tirou a vida aos 29 anos.
“Os médicos me explicaram que foi um fio de cabelo que me separou da morte. Teve um momento em que eu pensei: 'Se eu não morrer, eu vou sair daqui e vou pisar com tudo no acelerador'”, disse ela, que por isso encara Coração Acelerado como um recomeço.
Trabalhar com esse elenco foi uma das experiências mais incríveis que eu já tive na vida. De fato, você está certa; é muito divertido e leve. Muitas pessoas ali estão fazendo a sua primeira novela, mas com muita coragem e vontade. Sou uma dessas pessoas. Já a outra parte é muito experiente e com uma bagagem e muita história na TV brasileira. Cheguei até com um pouco de medo, mas eles abraçaram a gente e foram extremamente generosos. E isso inclui nomes como Leandra Leal, Letícia Spiller, Isabelle Drummond, Antonio Calloni, Marcos Caruso... Sou imensamente grata pelo universo ter se alinhado e me colocado no meu primeiro trabalho com um elenco tão generoso e tão unido dentro e fora de cena. Nossos bastidores são sempre uma farra.

Acho que a Rosinha foi uma construção inspirada em pessoas que eu conheço, que têm esse lugar de se achar importante por trabalhar para pessoas importantes, e também em mim mesma, no que diz respeito ao deslumbramento. Essa semana mesmo eu coloquei nas minhas redes eu chorando porque estamos na reta final, gravando as últimas cenas. Eu não tenho o mínimo de vergonha de estar deslumbrada por ter participado de um projeto como esse. Vim de uma cidade muito pequena, com uma escassez muito grande de cultura. As pessoas que fazem cultura na minha cidade têm que agarrar pelas unhas, porque é muito complicado. Tem pouquíssimo investimento. A gente não tem um teatro. Então, eu sou muito deslumbrada mesmo por chegar onde eu cheguei, mas é um deslumbramento bom. Tenho sonhos muito maiores agora. Então, acho que é uma construção de me inspirar nessas pessoas que eu conheci na minha vida e a mim mesma, sabe? Dessa coisa de ser uma pessoa que não tem vergonha de ser emocionada. Hoje as pessoas têm muita vergonha de ser emocionadas, de falar que amam, de falar que estão felizes ou de falar que estão tristes. Enfim, eu abraço as minhas emoções da melhor forma possível.
Como foi o seu processo de cura?
Foi nesse momento de perceber que, se eu estivesse em cima do palco, era um jeito de estar mais próxima da minha mãe, e ela virou essa vozinha da consciência. A gente passou por muitas dificuldades na vida e minha mãe sempre foi uma mulher muito guerreira, cheia de energia e que nunca desistia. Eu não tenho esse direito de desistir, até pela minha mãe, sabe?
Ela passou por tanta coisa para deixar os filhos em um lugar mais confortável, para nos dar estudos. Então, eu me vejo nesse lugar de eu ter que valorizar tudo e reverter toda essa dor que o luto me trouxe em um combustível. Passei a transformar esses momentos de dor em piada e falar da minha mãe no palco me aproximava cada vez mais dela. Quando perdi minha mãe, tinha medo de, com o tempo, me esquecer das coisas, do seu sorriso, da sua voz, das histórias... Contando essas histórias, eu mantenho a minha mãe cada vez mais viva dentro de mim e esse medo do esquecimento cada vez mais distante.
Depois desse recomeço, você sofreu um AVC. Como se deu conta de que estava tendo um AVC?
Na verdade, eu tinha tido um AVC aos 19 anos. Senti apenas um sintoma. Aos 29 anos, foi um sintoma completamente diferente. Eu estava em um aniversário, super feliz, quando comecei a me sentir mal e fui para o pronto-socorro. O primeiro diagnóstico que eu tive foi de uma crise de ansiedade. Eu cheguei embolando a fala e sentindo um pouco de dormência no meu rosto, que paralisou um pouco do lado esquerdo. Esses sintomas também podem acontecer dentro de uma crise de ansiedade. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha, entrei em contato com um neurologista e fiz uma ressonância e outros exames que confirmaram que eu estava tendo um quadro isquêmico. Por causa desse diagnóstico errado, eu tive que ficar mais tempo na UTI porque retornei com um diagnóstico mais sério e correndo o risco de ter mais AVCs já que o coágulo estava lá e eu não tinha entrado no protocolo.
Conseguiu entender o motivo de ter tido AVC tão jovem?
Passei um ano e meio nessa investigação e não acharam causa. Não sou obesa, não uso droga, não fumo, não sou alcoólatra, não tenho colesterol alto, não sou diabética.... Daí foram ver se era uma questão genética ou má-formação na carótida, mas não era. Entrei em um seleto grupo de 20% da minha faixa etária que tem AVC sem uma causa. Então eu entrei num protocolo de precaução: tentar levar uma vida mais saudável, não ser sedentária, tentar pensar numa alimentação mais saudável, já que meu corpo tem essa predisposição de criar esses coágulos, e tomar uma medicação, que é como se fosse um anticoagulante mais leve. Não tem explicação, mas meu médico disse que é melhor do que ter um diagnóstico e ter que mudar a vida toda. Ele disse: "Agradeça e vida e que segue. Vamos tentar viver da melhor forma possível". Até hoje, em qualquer momento da minha vida, penso nessa frase, "é vida que segue". Sempre penso: "O problema tem solução? Tem, ótimo. Se não tem, a gente vai lidar com isso e vida que segue". Tenho seguido da melhor forma possível.
Muitas pessoas não sobrevivem a um AVC, ainda mais sendo tão jovem. Você sobreviveu a dois! Considera-se um milagre?
Eu tenho muito medo de morrer! Qualquer doença que eu tinha, eu já me despedia da minha mãe (risos). Sou muito dramática! Mas também faço brincadeira com tudo e a todo momento. Quando entrei na UTI, me entregaram uma roupa e falaram para eu me trocar. Eu perguntei onde era o banheiro e falaram: "Se troca aqui mesmo". Daí eu brinquei, "Moça, meu marido me pagou uma Coca antes de me ver nua". Ela virou para a médica e falou: "Ela não sabe o que está acontecendo com ela, né?". Eu vendo aquela movimentação, me troquei. Na hora em que deitei na cama, ela me disse que eu não poderia mais me levantar porque entraria em um protocolo para evitar novos quadros isquêmicos. Daí tive muito medo de dormir e comecei a pensar no que eu ia deixar para as pessoas se eu morresse. Essas reflexões foram boas e isso me ajudou a pensar muito mais nas coisas que eu faço. Mas voltando à sua pergunta, meu médico disse que não foi sorte, foi Deus, eu ter tido um AVC e não ter ficado com nenhuma sequela. E ele falou que era para eu aproveitar a segunda chance e comemorar a minha vida. Sempre faço isso. Não me considero um milagre, mas as situações que eu vivi são milagrosas.
Com a morte da minha mãe, eu só enxergava a finitude dos outros. Eu não enxergava a finitude da minha vida. Então, eu queria aproveitar o outro, estar para o outro, mas eu nunca estava para mim e não me dava tanta importância. O AVC me levou a um lugar de entender que a minha vida era finita e eu precisava aproveitá-la. Ainda quero aproveitar o outro, mas me colocando também. Ver a morte de perto mudou completamente a forma como eu enxergo a vida. Entendi que a única coisa que a gente realmente tem é o hoje e o agora. Não significa que eu deixei de sonhar ou de pensar no futuro, mas que não adio a vida. Aprendi que os "nãos" fazem parte do caminho e que eles não vão definir quem eu sou. Então é bem aquele negócio: uma porta se fecha, eu sigo em frente porque eu sei que muita coisa pode mudar. Acho que o maior exemplo é eu estar neste projeto Coração Acelerado.
