18 Jun
18Jun

Fome de quê?

Parte 4

Investigações sobre como a indústria e o agronegócio prejudicam o acesso à alimentação de qualidade no Brasil – embora façam propaganda do contrário.

Todo dia de aula, cerca de 70 crianças Guarani-Kaiowá têm de caminhar 40 minutos para estudar e também para se alimentar. Na Escola Municipal Che Ru Apyka Rendy, localizada no território Guaiviry, na cidade de Aral Moreira no Mato Grosso do Sul, elas recebem a única refeição do dia. Quando há comida o suficiente, as cozinheiras preparam um pouco a mais, e as crianças podem levar para casa um punhado de arroz e feijão, muitas vezes em uma sacola de mercado. Caso contrário, só voltarão a comer no dia seguinte.

Amanda Miranda/Intercept Brasil

A escola também enfrenta uma grave infestação de ratos, que roem os pacotes de alimentos armazenados no velho armário da cozinha. O pouco que sobra é o que vai para a panela todos os dias. “Infelizmente, não há o que fazer, é a comida que temos”, lamenta Dionara Gomes, agente de saúde Kaiowá. Ela conta ainda que, quando há atraso na entrega dos alimentos, os alunos são liberados mais cedo. “Nossa expectativa é que eles encontrem algo [para comer] em casa.”Antônio Benites, professor indígena, frisa que as crianças são totalmente dependentes da merenda. “Para se ter uma ideia, os alunos voltam das férias mais magros e desanimados, porque em casa não têm a mesma alimentação que conseguem na escola. A insegurança alimentar é evidente”, diz. 

Dionara Gomes, agente de saúde Kaiowá, mostra onde os alimentos não perecíveis são armazenados na Escola Municipal Che Ru Apyka Rendy.

“A gente não tem acesso à natureza, por exemplo, com a caça, a pesca, né? Porque aqui em volta é tudo soja. Então, a gente vai procurar [comida] onde? O rio que passa ali é poluído pelo agrotóxico. E as crianças também acabam consumindo essa água.

”A fome que afeta as crianças da escola Che Ru Apyka Rendy reflete a dura realidade das 120 famílias de Guaiviry, uma comunidade que vive em uma terra reocupada pelos indígenas e ainda sem demarcação. Retomadas como esta acontecem por iniciativa dos próprios povos originários, quando há morosidade do estado na regularização da terra.

Apesar de possuírem pequenas áreas de plantio, os Guarani-Kaiowá são afetados pela contaminação de agrotóxicos provenientes das monoculturas de soja e milho que cercam o local. Com isso, suas roças são prejudicadas. E a fome é um mal que persiste. A retomada Guaiviry apresenta uma situação alarmante em termos de segurança alimentar, segundo um levantamento da Fian Brasil. Praticamente todas as famílias (95%) do local vivem ameaçadas pela fome, com maior ou menor grau de insegurança alimentar e nutricional, sendo que 9% delas vivem sob o que é considerado insegurança alimentar grave, ou seja, quando a quantidade de alimentos é insuficiente e adultos e crianças passam fome. A fome que assombra as crianças de Guaiviry quando falta alimentos na escola pode não ser aplacada em casa, se houver falhas na entrega de cesta básicas pelo governo federal, que fornece apenas uma cesta por família, independentemente do número de pessoas na residência – situação que também pode culminar na falta de comida. 

Salas improvisadas e negligência do estado

Além da fome, as crianças sofrem com as instalações precárias da escola. Praticamente tudo está danificado ou quebrado: cadeiras, mesas, armários e até o fogão. A quantidade de pratos é insuficiente, obrigando os alunos a revezarem para comer.  “As mesas estão todas rachadas e oferecem risco para as crianças pequenas. As cadeiras são antigas e desconfortáveis. Quando faz calor, não há ventiladores e as salas ficam extremamente quentes. No frio, muitas crianças não têm roupas adequadas e mal conseguem suportar duas horas na sala de aula. Somos obrigados a dispensá-las com um trabalho pra fazer em casa”, relata Gomes. 

Aula na casa de reza, na retomada Guaiviry.

Guaiviry, localizada próxima à fronteira com o Paraguai, enfrentou temperaturas extremas este ano, com picos de calor atingindo 40°C e quedas bruscas chegando a 5°C.

Benites afirma que a precariedade da escola, a infestação de ratos, o frio ou calor excessivos e a fome afetam diretamente o aprendizado das crianças: “As aulas ocorrem em salas improvisadas, como a casa de reza, que está em péssimas condições e se torna inoperante em dias de chuva”, explica. “Essa infraestrutura precária da escola e a insegurança alimentar refletem a negligência do Estado, que mesmo ciente da situação, pouco faz para mudar a realidade”, critica o professor. A comunidade já enviou documentos à Secretaria de Educação do município solicitando melhorias, mas não recebeu respostas. O Intercept Brasil entrou em contato com a Prefeitura e a Secretaria Municipal de Educação de Aral Moreira, questionando as condições da infraestrutura da escola e a falta de alimentos. No entanto, não recebeu resposta. A secretária de Educação do município, Vanir Linares, também foi contatada, mas tampouco respondeu.  

Sem demarcação, com fome 

A pesquisa da Fian Brasil mapeou ainda a insegurança alimentar de outras quatro retomadas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul: Kurusu Ambá, na cidade de Coronel Sapucaia; Ypo’i, em Paranhos; Apyka’i, em Dourados e Ñande Ru Marangatu, em Antônio João. E revelou que a insegurança alimentar em todas elas está diretamente ligada à falta de acesso a terras tradicionais, o que impede a produção de alimentos de maneira sustentável e adequada às práticas culturais da etnia.

Com pouca terra para produzirem, contaminação por agrotóxicos e muitas vezes sem água para beber, cozinhar e também para a irrigação, a produção agrícola tradicional é prejudicada, bem como a alimentação dessas comunidades, especialmente das crianças, como o Intercept já mostrou em outras reportagens sobre a violência e a fome que castiga os Guarani-Kaiowá.


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