07/01/2026
A inteligência artificial se revela uma ferramenta valiosa na área da saúde, como demonstrado em diversas inovações recentes. Um exemplo notável vem de Recife, a vibrante capital de Pernambuco, onde um projeto ambicioso está utilizando essa tecnologia para identificar pacientes com fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca que pode levar a complicações sérias, como o acidente vascular cerebral (AVC).
Fibrilação atrial, embora possa não apresentar sintomas, é responsável por cerca de 20% dos AVCs isquêmicos, de acordo com especialistas. A cardiologista Tieta Albanez, que lidera o projeto em Recife, explica que essa condição faz com que o coração bombeie sangue de forma menos eficiente, o que pode resultar na formação de coágulos. Esses trombos, muitas vezes silenciosos, podem se deslocar e obstruir vasos sanguíneos no cérebro, levando a sérias consequências.

Imagine uma situação em que o seu coração, de repente, começa a funcionar de forma irregular. Isso é o que acontece na fibrilação atrial. Segundo Tieta, “o paciente não sente nada, mas o coração está batendo de forma irregular”. Essa irregularidade é o que a tecnologia busca identificar rapidamente.
O uso da inteligência artificial entra em cena nesse contexto ao analisar eletrocardiogramas (ECGs) de forma ágil e precisa. A plataforma Kardia, desenvolvida pela empresa Neomed, utiliza nove algoritmos clínicos para examinar cada exame em cerca de sete segundos, gerando um laudo preliminar que o médico pode avaliar. Essa abordagem, segundo estimativas do projeto, pode reduzir os casos não diagnosticados de fibrilação atrial, que afetam uma parcela significativa da população.
Entre outubro de 2024 e abril de 2025, quase 4 mil eletrocardiogramas foram analisados em hospitais privados de Recife, resultando na identificação de 48 casos de fibrilação atrial. “Conseguimos aumentar significativamente o diagnóstico dessa arritmia, que muitas vezes passava despercebida”, afirma Tieta. A identificação precoce é crucial, pois permite intervenções que podem reduzir o risco de AVC, como o uso de anticoagulantes.
Entretanto, nem todos os pacientes podem fazer uso desses medicamentos. Para atender a essa necessidade, o projeto também oferece uma solução inovadora em parceria com a Boston Scientific. Trata-se do implante Watchman FLX, um dispositivo que fecha a região do coração onde os coágulos tendem a se formar. Este procedimento minimamente invasivo, realizado por cateter, já beneficiou alguns dos pacientes diagnosticados.
Durante a discussão com a cardiologista, surgiu a dúvida sobre o número de diagnósticos realizados. Tieta destacou que, mesmo quando a arritmia não é detectada, os pacientes ganham com isso, pois saber que estão livres de fibrilação atrial é uma informação valiosa. “Esse conhecimento é, sem dúvida, um benefício tanto para os diagnosticados quanto para a saúde pública”, conclui a especialista.
A iniciativa de Recife não apenas reforça o papel da tecnologia na medicina moderna, mas também ilustra como a inteligência artificial pode salvar vidas, prevenindo condições graves, como o AVC. Com o avanço contínuo dessa tecnologia, espera-se que projetos semelhantes se espalhem por outras regiões do Brasil, ampliando o acesso a diagnósticos precoces e tratamentos eficazes.