

Escrito por Dr. Pedro Pinheiro (CRM RJ 73009-2) - Revisado e atualizado em maio 19, 2025
A apneia do sono, também conhecida como síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), é um distúrbio provocado por frequentes obstruções parciais ou completas das vias respiratórias durante o sono, o que leva a episódios repetidos e temporários de cessação da respiração enquanto o paciente dorme.
Qualquer pessoa pode desenvolver apneia obstrutiva do sono, embora ela seja muito mais comum em indivíduos com mais de 60 anos, obesos ou fumantes.
Se você ronca muito, acorda subitamente durante a noite com sensação de estar engasgado e sente-se muito sonolento durante o dia, existe uma grande chance de você estar sendo acometido pela síndrome da apneia obstrutiva do sono.
Neste artigo explicaremos a apneia obstrutiva do sono, dando ênfase às causas, fatores de risco, diagnóstico, sintomas e opções de tratamento.
Se você procura informações sobre o ronco simples, aquele que ocorre sem que exista a síndrome da apneia obstrutiva do sono.
A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio caracterizado por interrupções curtas e repetidas da respiração durante o sono. Ela ocorre quando os músculos das vias respiratórias altas relaxam enquanto dormimos, fazendo com que os tecidos moles na parte de trás da garganta colapsem, bloqueando a passagem do ar em direção aos pulmões (veja a ilustração abaixo).

O relaxamento e o consequente colapso dos músculos da faringe podem provocar reduções parciais ou totais da respiração, eventos que recebem, respectivamente, os nomes de hipopneia e apneia. Os episódios de obstrução respiratória costumam durar entre 10 e 30 segundos, mas alguns podem persistir por mais de um minuto, provocando importantes reduções na saturação de oxigênio no sangue.
A queda abrupta na taxa de oxigenação do sangue alerta o cérebro, que responde provocando uma súbita interrupção do sono para o indivíduo poder voltar a respirar. Esse padrão de obstrução das vias aéreas seguida de interrupção do sono pode ocorrer centenas de vezes em uma noite.
O paciente pode acordar subitamente, com sensação de estar sufocado ou engasgado, contudo, em casos menos severos, a superficialização do sono pode ser tão efêmera, que o indivíduo volta a dormir imediatamente e depois não se recorda de ter acordado.
O resultado da apneia do sono é um padrão de sono fragmentado, não restaurador, que muitas vezes resulta em um excessivo nível de sonolência durante o dia. E o mais curioso é que muitos dos pacientes nem sequer desconfiam que a causa do seu sono excessivo seja o fato de dormirem mal, já que eles não se lembram de acordar várias vezes durante a noite.
A síndrome apneia obstrutiva do sono é um distúrbio extremamente comum. Estima-se que cerca de 20 a 30% da população adulta masculina e 10 a 15% da população adulta feminina sofram desse mal. Apenas uma minoria desses indivíduos, porém, tem o diagnóstico corretamente estabelecido por um médico.
O relaxamento da musculatura respiratória é comum durante o sono, e na maioria das pessoas ele não é intenso o suficiente para causar obstrução ao fluxo aéreo. Para que a síndrome da apneia obstrutiva do sono ocorra, alguns outros fatores precisam estar presentes. A obesidade, a idade avançada, o tabagismo, a história familiar e alterações da anatomia das vias respiratórias costumam ser os fatores de risco mais importantes. Mas eles não são os únicos.
A seguir, descreveremos os fatores de risco mais comuns para a SAOS.
A sonolência diurna é um dos sintomas mais comuns da SAOS, sendo frequentemente o motivo pelo qual o paciente procura ajuda médica. É importante saber distinguir a sonolência da fadiga (cansaço). A primeira é uma incapacidade de permanecer completamente desperto ou alerta durante o dia, enquanto a fadiga é uma queixa subjetiva de falta de energia física ou mental.
Inicialmente, a sonolência diurna pode passar despercebida ou ser subestimada, pois o quadro costuma evoluir muito lentamente ao longo de meses ou anos. O paciente pode não descrever o sintoma como sonolência, utilizando outros termos, tais como fadiga, cansaço, desânimo ou falta de energia. Contudo, se o paciente for questionado de forma cuidadosa, geralmente revela-se um padrão de sonolência excessiva, com adormecimento frequente durante situações passivas ou monótonas, como leituras, aulas, missas, assistir televisão, ir ao cinema ou até mesmo durante a condução de um carro.
O consumo desmedido de café durante o dia também pode ser um sinal de sonolência diurna excessiva.
Alguns pacientes queixam-se mais de insônia do que da sonolência diurna. Geralmente isso ocorre nos indivíduos com episódios repetidos de apneia durante o sono, o que impossibilita a entrada do paciente no estágio de sono profundo. Este tipo de queixa é mais comum nas mulheres.
O ronco durante o sono é a outra característica típica da apneia obstrutiva do sono. Cabe aqui um esclarecimento, nem todo paciente que ronca tem SAOS, porém mais de 90% dos pacientes com SAOS roncam. Portanto, dito de outra forma, a existência de ronco não é suficiente para fechar o diagnóstico da apneia do sono, mas a sua ausência torna a SAOS uma hipótese pouco provável.
A síndrome da apneia obstrutiva do sono não deve ser a primeira hipótese diagnóstica em indivíduos magros com ronco leve, mas é um cenário bastante provável no caso de pessoas obesas que roncam alto.
A presença do parceiro(a) ou de algum familiar que durma na mesma casa costuma ser importante durante a consulta médica, pois eles habitualmente têm um conhecimento sobre o padrão do sono melhor que o próprio paciente.
Eventos associados ao sono, tais como roncos, períodos de interrupção da respiração, agitação noturna, engasgos ou episódios súbitos de despertar sobressaltado são mais facilmente constatados por quem está ao lado.
Além de sonolência diurna e dos roncos, há outros sinais e sintomas frequentemente associados à síndrome da apneia obstrutiva do sono. São eles:
Pacientes com apneia obstrutiva do sono apresentam um maior risco de acidentes ou de desenvolvimento de doenças clínicas.
Acidentes de trânsito são duas a três vezes mais comuns entre pacientes com SAOS do que na população em geral. Indivíduos com apneia do sono não devem conduzir veículos, operar máquinas pesadas nem receber responsabilidades que exijam atenta vigilância.
Pacientes com SAOS, particularmente nos casos moderados a grave, estão sob risco aumentado de desenvolverem uma ampla gama de complicações cardiovasculares, incluindo hipertensão arterial, hipertensão pulmonar, doença coronariana, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca e AVC.
Pacientes com apneia obstrutiva do sono apresentam uma maior prevalência de pré-diabetes, diabetes e síndrome metabólica. Embora estas doenças estejam nitidamente relacionadas à obesidade, a existência da SAOS é um fator de risco adicional.
Vários estudos têm mostrado que os pacientes com SAOS apresentam uma incidência aproximadamente duas vezes maior de depressão do que o resto da população (leia: O que é depressão?)
Pacientes com apneia obstrutiva do sono, que precisam ser operados por qualquer motivo, estão sob maior risco de complicações cirúrgicas, tais como insuficiência respiratória aguda, eventos cardíacos no pós-operatório ou necessidade de condução do pós-operatório em unidades de terapia intensiva.
Pacientes com SAOS grave e não tratada têm duas a três vezes maior risco de mortalidade, por qualquer causa, quando em comparação com indivíduos sem esse distúrbio.
Pacientes com história clínica que levante a suspeita de apneia do sono devem ser avaliados com um exame de polissonografia, que costuma ser realizado em centros especializados em tratamento dos distúrbios do sono.
A polissonografia é um exame não invasivo, no qual o paciente dorme enquanto a equipe médica faz um registro completo da atividade do organismo, incluindo a atividade elétrica cerebral, ritmo respiratório e cardíaco, tônus muscular, movimentos oculares e taxa de oxigenação do sangue.
Nos adultos, o diagnóstico da SAOS costuma ser confirmado se pelo menos uma das duas situações a seguir existir durante a polissonagrafia:
Os pacientes que satisfazem os critérios para o diagnóstico de SAOS são tradicionalmente classificados como portadores de doença leve, moderada ou grave, com base nos seus sintomas e nos resultados da polissonografia.
Pacientes com 5 a 15 eventos respiratórios por hora de sono. Esses pacientes costumam ter poucos sintomas e a sonolência diurna é branda, não sendo capaz de afetar a qualidade de vida. Complicações cardiovasculares não costumam ocorrer.
Pacientes 15 a 30 eventos respiratórios por hora de sono. Esses pacientes costumam notar relevante sonolência diurna, que é capaz de interferir nas atividades diárias. Neste grupo, já há um aumento da incidência de acidentes automobilísticos, e complicações, como a hipertensão arterial, já podem existir.
Pacientes com mais de 30 eventos respiratórios por hora de sono ou que apresentam à polissonografia quedas importantes na taxa de saturação de oxigênio no sangue (oximetria abaixo de 90%) em pelo menos 1/5 do tempo do exame. Esses pacientes têm grande sonolência diurna e tendem a cair no sono muitas vezes durante o dia, mesmo sentados.
Pacientes com SAOS grave têm um risco aumentado de mortalidade por complicações cardiovasculares ou acidentes.
O tratamento da SAOS visa acabar ou amenizar os episódios de apneia ou hipopneia e melhorar a saturação de sanguínea de oxigênio no sangue durante o sono. Nos casos leves, medidas simples podem ser efetivas. Nas formas mais graves, aparelhos respiratórios podem ser necessários.
A atitude mais importante é emagrecer, caso o paciente tenha uma IMC acima de 25 kg/m². A prática de exercício físico regularmente também ajuda. Diminuir o consumo de bebidas alcoólicas e suspender o cigarro são essenciais.
Evitar dormir de barriga para cima pode ajudar a reduzir o número de eventos respiratórios durante o sono.
Medicamentos para dormir, como os ansiolíticos, não devem ser usados sem orientação médica, pois estes podem aumentar o risco de apneia do sono.
O CPAP é uma sigla em inglês que significa Continuous Positive Airway Pressure (pressão positiva contínua nas vias aéreas). É um método bastante eficaz para as formas moderadas e graves da apneia do sono.
O CPAP é um tratamento que consiste no uso de uma máquina ventilatória que fornece ar sob pressão através de uma máscara que deve ser acoplada ao paciente antes de dormir. O CPAP reduz o número de eventos respiratórios à noite, reduz a sonolência diurna e melhora a qualidade de vida do paciente.
Embora o CPAP seja o método mais bem-sucedido e mais comumente utilizado para o tratamento de apneia obstrutiva do sono, algumas pessoas acham que a máscara é desconfortável ou máquina barulhenta. As máquinas mais recentes, no entanto, são menores e produzem bem menos ruídos que máquinas mais antigas.
Para os pacientes com SAOS leve ou moderada que não toleram ou não querem tratamento com CPAP, um aparelho oral que acerta o posicionamento da mandíbula e da língua é uma alternativa possível.
A pressão positiva de vias aéreas é geralmente mais eficaz, mas a maioria dos pacientes acaba se adaptando melhor aparelho oral. Como a adesão ao tratamento é um aspecto essencial de sucesso, o uso de aparelhos orais acaba sendo uma alternativa aceitável.
Nos casos de SAOS grave, porém, somente o CPAP é uma opção eficaz.
Se nenhum dos tratamentos funcionar, a cirurgia para correção de alterações anatômicas pode ser a solução. A cirurgia, porém, fica reservada para casos específicos e só é indicada após cuidadosa avaliação médica.