"É Impactante imaginar o esforço hercúleo que afásicos fazem para conseguir se comunicar, um esforço invisível a que está de fora, ao contrário quando o esforço é do corpo. O do cérebro é tão mais dificil! Incríveis pessoas!" (Heloisa Martins).
No passado prevalecia a ideia de que, uma vez lesionado, o cérebro não seria capaz de se regenerar ou recuperar. As teses chamadas localizacionistas defendiam a ideia de que o local da lesão cerebral determinava também a localização da função cerebral. Se uma lesão em determinado lugar do cérebro causava a dificuldade para evocar palavras, aquele lugar da lesão seria também a área responsável por aquela função da linguagem, estabelecendo uma correlação direta entre lesão e função cerebral. Se a área estava afetada, a função da linguagem também estaria afetada de forma irreversível.
Os anos 90 ficaram conhecidos como a década do cérebro. Inúmeros estudos, diversas pesquisas, um avanço tecnológico fantástico nas chamadas neurociências mudaram a forma de entender e conhecer o cérebro e suas correlações com a linguagem e com a cognição. A chamada plasticidade neuronal mostrou um cérebro flexível, capaz de se reconstruir e de se reorganizar apesar da lesão cerebral sofrida. Novas sinapses, novos caminhos, “dar a volta por cima”.
A reabilitação fonoaudiológica visa a reconstrução da linguagem, a utilização de estratégias multimodais, a reorganização das habilidades de comunicação e dos aspectos que são relevantes nas atividades de vida de qualquer indivíduo - afásico ou não - para uma melhor interação, sociabilização e comunicação.
O objetivo da avaliação de linguagem é conhecer e compreender os mecanismos e as estratégias dos quais o afásico lança mão para se fazer entender, ou seja, como usa a linguagem oral e escrita, a gestualidade, a expressão facial, a entonação da voz, o direcionamento do olhar etc. para dar conta da comunicação nas diversas atividades interativas de sua vida cotidiana.
É claro que a pessoa que não é afásica pode usar a linguagem oral de forma predominante nas situações de comunicação, mas também gesticula, modifica a entonação da voz, aponta lugares e objetos, movimenta o corpo, faz expressões faciais etc. concomitantemente ou não com a linguagem oral, para dar conta da significação. O afásico, diante da dificuldade de linguagem que a afasia impõe, precisa necessariamente mobilizar outros recursos além da fala para se comunicar.
Conhecer os movimentos linguístico-cognitivos que o afásico faz durante a interação e reconhecer esses movimentos como linguagem que permite construir sentidos é o objetivo da avaliação e também da reabilitação. Sim, porque, de nosso ponto de vista, avaliação e reabilitação formam um continuum composto por idas e vindas, por ajustes e negociações de sentido, por trocas e compartilhamento do que se quer dizer e do que é dito e compreendido pelo afásico e seus interlocutores.
A perspectiva sociocognitiva e interacionista aqui adotada propõe que os aspectos sociais, interacionais, cognitivos, culturais e multimodais relacionados à linguagem e demais processos cognitivos são essenciais, relevantes e determinantes na avaliação para conhecer como o afásico mobiliza a linguagem para produzir sentidos, para se comunicar e interagir em seu grupo social, apesar da afasia.
Para se comunicar, o afásico – como também quem não é afásico – pode fazer uso da linguagem oral e escrita; de gestos indicativos (apontamentos com o dedo indicador) ou de gestos que representam um sentido fixo por convenção social (como, por exemplo, o gesto de “positivo” com o dedo polegar erguido ou o gesto de “dinheiro” com o movimento repetido dos dedos indicador e polegar); de movimentos do corpo, dos braços, das mãos, da cabeça; de expressões faciais; da prosódia (entonação da voz). Não há padrões, não há receitas, não há o “faça isso” nem o “não faça aquilo”.