19 Aug
19Aug

Eu me recordo

A psicóloga Antonietta Donato e eu, a fonoaudióloga Ana Lucia Tubero, colocamos a mão (e o coração) na massa juntamente com os participantes do Grupo Pauliceia neste projeto. São lembranças, recordações, evocações e memórias associadas à cozinha, à culinária, às refeições, ao ato de cozinhar e preparar os alimentos: não por acaso, uma das integrantes do Grupo Pauliceia – a Bia – batizou o trabalho de Cozinha Experimental da Memória.

"E me recordo, reaproprio-me e reciclo minhas lembranças"

                Do projeto de culinária à Cozinha Experimental da Memória

A Antonietta fez a adaptação para a área de Fonoadiologia de um projeto anterior efetuado na área de Psicologia com intenção de promover a auto-estima através do resgate de habilidades e comportamentos perdidos ou esquecidos adaptados às pobilidades atuais. O projeto baseia-se em algumas primissas básicas:

Tarefas manuais apresentam ao cérebro e às atividades cognitivas desafios que podem resultar em sentimentos de potência, utilidade e capacidade de intervenção no seu meio ambiente. No caso, optou-se por executar receitas culinárias originárias da infância ou de uma época remota da vida dos participantes.
Memórias afetivas remotas podem ser usadas como ferramentas apropriadas para construir o cenário e o script focados no objetivo proposto, criando um palco que possibilita a dinâmica e vivências promotoras de resgate e transformação.
A tarefa em grupo propicia situações de socialização, lazer, troca de informações e o compartilhar de vivências que enriquecem e aumentam o espaço de vida de seus participantes.

                        As histórias de culinária e suas memórias


Cadernos de receitas, livros antigos de culinária, Dona Benta em várias edições, reescrita de receitas trazidas pela memória e recordação, ida ao Mercado Municipal de São Paulo - esse foi material teórico de trabalho

O molho de tomate e a macarronada da mamma Chiesa retrabalhadas pela Rosa em seu fusilli à moda antiga feito ainda com arame. A rabanada da vovó Florinda da qual se recorda os sabores dos dias de Natal e a formidável calda. A torta de palmito feita para os amigos que se reuniam em Ibiúna nos finais de semana junto à lareira.

A língua ao Madeira que traz as memórias de uma infância acordando de madrugada em Poá e levando as verduras plantadas pela mãe até a estação de trem, para serem vendidas em São Paulo, e do vendedor de tripas que anunciava cantando: Triiiiipaaaaas! Triiiipaaaaas! – que eram vendidas num carroção pelas ruas de São Paulo.

O desafio do mingau de aveia feito por uma criança para o tio com dedicação e empenho de adulto. Os bem casados da Olímpia feitos no casarão da Vila Kyrial onde o avô reunia gente importante nos saraus literários. O sorvete de flocos com coco feito por alguém que a partir dos 80 anos decidiu que só quer saber de rir e de brincar. O purê de batatas com noz moscada lembrado pela mãe e feito pela avó, mas o filho quer saber mesmo é do pastel de carne.

E como a cozinha é prática...

O preparo de uma refeição por um grupo de pessoas afásicas e não afásicas

No preparo de uma refeição qualquer nem sempre a linguagem falada tem papel relevante: podemos cozinhar em silêncio. Mas como estamos em um grupo e realizando uma tarefa em grupo, a linguagem falada tem papel importante. Mas em se tratando de um grupo de afásicos, todo e qualquer tipo de linguagem – verbal e não verbal – torna-se relevante: fala, gestos, apontamentos, mímica facial, entoação de voz, movimentos do corpo.Por ser um grupo temático com afásicos, é necessário considerar:

  • Questões linguísticas – associadas às dificuldades de expressão e de compreensão, tanto oral como escrita.
  • Questões práxicas – associadas ao planejamento / programação e à execução de tarefas: sequencialidade de etapas, sucessividade de etapas, avaliação de cada etapa.
  • Questões motoras – associadas à hemiplegia e hemiparesia, sobretudo da mão direita e braço direito em indivíduos destros.

É necessário lidar adequadamente com o tempo deles para a execução de tarefas, pensando não apenas no tempo linear, mas também no tempo de programação e execução da atividade em função dos problemas linguísticos, práxicos, cognitivos e motores. É preciso intervir somente quando se apresentar a oportunidade de “corrigir” – aqui a noção de erro se traduz em possibilidades – ou desconstruir um mito negativo.

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